sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

...Shatter Me With Hope!

Porque é que está tudo tão cinzento? Porque é que está tudo tão estranho? Porque insistem em querer derrubar o muro, se nunca tiveram intenção de entrar? De que serve mostrarmo-nos fortes se o que é fraco, ainda tenta bater dentro de nós? Novamente o peso da perda descansa em meus ombros e eu juro, que o tinha arrancado mas as tuas palavras o devolveram ao sitio sem eu me aperceber,… dia a dia foi-se integrando no meu peito como que se nunca tivesse sido despejado. Colocaste-o no sítio, coseste-o com as tuas mãos enquanto anestesiavas-me com as tuas palavras sensoriais. Saravas-me as cicatrizes com aqueles teus beijos, distantes, cálidos e errantes de vidro . Repetiste-me vezes sem conta qual era a sua função e como o devia usar. No dia em que tinha o peito sarado de todas as operações e pronto a usá-lo, as tuas palavras desapareceram. Senti um frio enorme e a escuridão dava conta de todos os meus sentimentos. Sentimentos! Já tinha esquecido qual o significado. Evitava respirar na tentiva de ouvir qualquer murmúrio, mas era em vão! Por vezes é melhor que nos tirem o chão do que ter que caminhar sobre mentiras e promessas, ...às vezes desejava estar morto demais para não sentir a dor de volta. E aqui fico eu, com as mãos enfiadas nos meus bolsos metafóricos, acorrentado ao meu confortável canto do medo. Os meus olhos ateiam fogo aos pensamentos mais obscuros, enquando vejo as cinzas subirem ao céu como se estivessem a dançar algum tipo de valsa. Nem eu acredito no que estou a dizer, mas enquanto estas cicatrizes me fizerem lembrar que o passado é real vou fechar-me dentro de mim e não permitir que cheguem perto, ouvir a minha alma a gritar mas manter sempre a boca calada, chorar mas sempre sozinho!


segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

... Good day to be alive!

(Ligo o isqueiro e acendo um cigarro…)

Caminhava sozinho pelas ruas encardidas de dúvidas e sombras irrequietas, desviando-me o olhar dos paralelos irregulares da calçada.

O dia perpetuava-se de chuva e lá ia eu, pontapeando as latas vazias, pisando as poças de água e eis que surge, por detrás de um trovão, uma voz divina, dirigida na minha direcção:

- “Filho, isto não é o melhor caminho. Tu tens de trabalhar e estudar para construir o teu futuro. Amar e ser fiel. Só tens que seguir o meu caminho, o caminho da luz”.

-“Mas, …quem és tu!?”- Perguntava eu,

-“Sou deus.”

E lá inverti eu o caminho. Seguindo agora a luz divina.


(faço umas bolinhas de fumo...)


-“Hoje é um bom dia para se estar vivo!” - Exclamava ele, enquanto desaparecia.

Trabalhei, estudei e amei, … mas a certa altura, o que parecia ser uma luz ao fundo do túnel, tornou-se num comboio descontrolado que me derrubou, espalhando por todo o lado, os anos de trabalho, a dedicação ao estudo e o amor que construí…


(dou mais uma passa…)


Apesar de todo o desalento ao ver tamanha destruição, nem tudo estava perdido, pois estava sentado numa poça de água e tinha uma lata vazia ao meu lado, para pontapear.


(apago o cigarro, prensando a beata no cinzeiro…)


(mas deus não existe… ás vezes falamos para o boneco, mas outras vezes é o boneco que fala para nós!)


(tenho que deixar de fumar disto!)

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

... Bloody Sunday

Hoje acordei com as mãos cheias de sangue. Pelo brilho do mesmo dava para notar que estava fresco e que pertencia a alguém tão inocente quanto eu. A primeira reacção foi olhar-me ao espelho e procurar exaustivamente uma qualquer ferida que pode-se ter disputado todo aquele cenário.

Nada…

Fechei os olhos e os flashes encandearam-me a negra visão e lá estava ela. A vitima mais recente de alguém cuja intenção não nunca foi despertar o seu amor ou trazer ilusões seminais …., mas que, no entanto matou!

Quando eu era mais novo, a minha avó contava-me em histórias que, as sereias usavam o seu canto e conduziam os marinheiros à morte. E o quanto eu preferia que assim fosse…

Por muito que procure nos meus sentimentos uma razão para viver, por vezes torna-se difícil, quando os mesmos servem para destruir todos aqueles que ousam aproximar-se de mim.

Se eu não estivesse habituado, hoje estava longe. Quieto. Calado. Resguardado pela parede que indisponibiliza toda e qualquer preservação do mártir que preside em mim.

Depois disto de nada vale lavar as mãos. De nada serve cobrir a carcaça com lágrima e flores para que se mande o cheiro da minha culpa para o túmulo.

Se ao menos eu te pudesse dar todo o sangue que esvaziei das tuas veias. Se ao menos eu pudesse fazer com que as minhas palavras conseguissem erguer um muro bem mais alto e sólido. Se eu não adivinha-se!

Em 1917, Franz Kafka escreveu o seguinte no conto O silêncio das sereias:

As sereias, porém, possuem uma arma ainda mais terrível do que seu canto: seu silêncio.