"Death may be the greatest of all human blessings."
Socrates
Porque é que está tudo tão cinzento? Porque é que está tudo tão estranho? Porque insistem em querer derrubar o muro, se nunca tiveram intenção de entrar? De que serve mostrarmo-nos fortes se o que é fraco, ainda tenta bater dentro de nós? Novamente o peso da perda descansa em meus ombros e eu juro, que o tinha arrancado mas as tuas palavras o devolveram ao sitio sem eu me aperceber,… dia a dia foi-se integrando no meu peito como que se nunca tivesse sido despejado. Colocaste-o no sítio, coseste-o com as tuas mãos enquanto anestesiavas-me com as tuas palavras sensoriais. Saravas-me as cicatrizes com aqueles teus beijos, distantes, cálidos e errantes de vidro . Repetiste-me vezes sem conta qual era a sua função e como o devia usar. No dia em que tinha o peito sarado de todas as operações e pronto a usá-lo, as tuas palavras desapareceram. Senti um frio enorme e a escuridão dava conta de todos os meus sentimentos. Sentimentos! Já tinha esquecido qual o significado. Evitava respirar na tentiva de ouvir qualquer murmúrio, mas era em vão! Por vezes é melhor que nos tirem o chão do que ter que caminhar sobre mentiras e promessas, ...às vezes desejava estar morto demais para não sentir a dor de volta. E aqui fico eu, com as mãos enfiadas nos meus bolsos metafóricos, acorrentado ao meu confortável canto do medo. Os meus olhos ateiam fogo aos pensamentos mais obscuros, enquando vejo as cinzas subirem ao céu como se estivessem a dançar algum tipo de valsa. Nem eu acredito no que estou a dizer, mas enquanto estas cicatrizes me fizerem lembrar que o passado é real vou fechar-me dentro de mim e não permitir que cheguem perto, ouvir a minha alma a gritar mas manter sempre a boca calada, chorar mas sempre sozinho!
(Ligo o isqueiro e acendo um cigarro…)
Caminhava sozinho pelas ruas encardidas de dúvidas e sombras irrequietas, desviando-me o olhar dos paralelos irregulares da calçada.
O dia perpetuava-se de chuva e lá ia eu, pontapeando as latas vazias, pisando as poças de água e eis que surge, por detrás de um trovão, uma voz divina, dirigida na minha direcção:
- “Filho, isto não é o melhor caminho. Tu tens de trabalhar e estudar para construir o teu futuro. Amar e ser fiel. Só tens que seguir o meu caminho, o caminho da luz”.
-“Mas, …quem és tu!?”- Perguntava eu,
-“Sou deus.”
E lá inverti eu o caminho. Seguindo agora a luz divina.
(faço umas bolinhas de fumo...)
-“Hoje é um bom dia para se estar vivo!” - Exclamava ele, enquanto desaparecia.
Trabalhei, estudei e amei, … mas a certa altura, o que parecia ser uma luz ao fundo do túnel, tornou-se num comboio descontrolado que me derrubou, espalhando por todo o lado, os anos de trabalho, a dedicação ao estudo e o amor que construí…
(dou mais uma passa…)
Apesar de todo o desalento ao ver tamanha destruição, nem tudo estava perdido, pois estava sentado numa poça de água e tinha uma lata vazia ao meu lado, para pontapear.
(apago o cigarro, prensando a beata no cinzeiro…)
(mas deus não existe…
(tenho que deixar de fumar disto!)